Em um dia exatamente como este, te vi pela última vez.
A pele sem cor, os olhos e os lábios cerrados, mas o espírito livre, finalmente.
Te confesso que me senti culpada porque, afinal, eu era sua melhor amiga, entretanto, minha amizade não pôde te dar razões pra ficar, nada pôde. E isso quase me enlouqueceu.
Eu te odiei, odiei muito! Odiei por absoluta incapacidade de lidar com aquela dor que me comia as entranhas, incapacidade de entender tudo aquilo.
Meu Deus, nos conhecemos lutando pela vida, literalmente, lutando pela vida, e você resolve desertar depois de ter vencido as batalhas mais sangrentas.
Sabíamos que muitas outras viriam, mas estávamos determinadas a levantar os estandartes e avançar com as fileiras. Era o pacto que tínhamos uma com a outra. Era o pacto que tínhamos com nosso próprio coração.
Sete anos depois, tenho a cicatriz, uma dentre tantas que irão moldar meu rosto através dos tempos. O meu rosto verdadeiro, aquele sobre o qual Nelson Rodrigues falava.
Percebi que havia te perdoado quando minhas lágrimas deixaram de ter amargor. Ou melhor, percebi que você não havia feito nada de que tivesse que perdoá-la, mas me perdoei pelo meu egoísmo que se confundiu com a falta que você me faz até hoje, essa falta do meu pedaço que era a nossa amizade, pelo meu egoísmo que se confundiu com minha imaturidade.
Hoje, a imagem dos olhos cerrados foi substituída pelo olhar cintilante, cheio de sonhos, olhar resoluto, que conseguíamos ter mesmo naqueles anos tão difíceis.
Gostaria que soubesse que sempre te amei e que espero que no dia em que for ser tocada pelas árvores e ocupar as flores, encontre você.
Em Lagoa Santa, 19-12-06