sexta-feira, dezembro 22, 2006

...

Em um dia exatamente como este, te vi pela última vez.

A pele sem cor, os olhos e os lábios cerrados, mas o espírito livre, finalmente.

Te confesso que me senti culpada porque, afinal, eu era sua melhor amiga, entretanto, minha amizade não pôde te dar razões pra ficar, nada pôde. E isso quase me enlouqueceu.

Eu te odiei, odiei muito! Odiei por absoluta incapacidade de lidar com aquela dor que me comia as entranhas, incapacidade de entender tudo aquilo.

Meu Deus, nos conhecemos lutando pela vida, literalmente, lutando pela vida, e você resolve desertar depois de ter vencido as batalhas mais sangrentas.

Sabíamos que muitas outras viriam, mas estávamos determinadas a levantar os estandartes e avançar com as fileiras. Era o pacto que tínhamos uma com a outra. Era o pacto que tínhamos com nosso próprio coração.

Sete anos depois, tenho a cicatriz, uma dentre tantas que irão moldar meu rosto através dos tempos. O meu rosto verdadeiro, aquele sobre o qual Nelson Rodrigues falava.

Percebi que havia te perdoado quando minhas lágrimas deixaram de ter amargor. Ou melhor, percebi que você não havia feito nada de que tivesse que perdoá-la, mas me perdoei pelo meu egoísmo que se confundiu com a falta que você me faz até hoje, essa falta do meu pedaço que era a nossa amizade, pelo meu egoísmo que se confundiu com minha imaturidade.

Hoje, a imagem dos olhos cerrados foi substituída pelo olhar cintilante, cheio de sonhos, olhar resoluto, que conseguíamos ter mesmo naqueles anos tão difíceis.

Gostaria que soubesse que sempre te amei e que espero que no dia em que for ser tocada pelas árvores e ocupar as flores, encontre você.

Em Lagoa Santa, 19-12-06

domingo, dezembro 17, 2006

Rosto de Menina

E.C.

O olhar é faceiro
Mineiro, sagaz
O demais é suposto
Pelos traços do rosto
De beleza loquaz!

Gravado em minha retina

Esse rosto de menina
Reverbera, irradia
O brado libertário
Dos mártires do passado:
Liberdade ainda que tardia!

De alguém mais que especial, para essa alma aqui. :)


segunda-feira, dezembro 11, 2006

Pegando carona com quem já "pegou o espírito"

Jingle Bell prá vocês - Mário Prata

Não gosto do Natal. Não chego a odiar mas não gosto. Nunca gostei. Desde pequeno, no interior. Papai Noel sempre me assustou. Gostava de preparar a árvore com dias de antecedência, apesar de não concordar em colocar algodão para "simbolizar" a neve. Gostava de imaginar os presentes. Aliás, não gosto nem de dar e nem de receber presentes em datas certas. O presente é bom quando você não espera. No aniversário, Natal, Dia da Criança, depois Dia dos Pais, acho um saco de Papai Noel. O presente, conforme a palavra em si se explica, é uma presença. Portanto, não pode ser datada. Não deve ser uma obrigatoriedade.

Além de não gostar do Natal, em alguns aspectos, ele chega a ser irritante: Em vários aspectos. Senão, vejamos:

— Quer coisa mais irritante durante o mês de dezembro do que ir a um barzinho ou restaurante, de noite, para tomar um chopinho e ter, ao seu lado, aos gritos, berros e urros, uma "festinha da firma", com risos histéricos, discursos profundos e etílicos do "chefe", gozações com a "gostosa" da firma e a indefectível troca de "amigos secretos?" Por que gritam tanto nas "festinhas da firma?" E quando você vai ao banheiro sempre tem um ou dois funcionários burocraticamente vomitando. Como se vomita no Natal! Principalmente os bancários.

— E o "amigo secreto" então? Já notaram que sempre sai para quem não é nem muito amigo e muito menos muito secreto? E você passa o mês inteiro tendo que imaginar o que vai dar praquele chato. Se o "amigo secreto" já é uma relação constrangedora na firma, em família então, nem se fala. Em primeiro lugar, porque dois ou três dias depois do "sorteio", todo mundo já sabe quem é o amigo de quem. Você já sabe pra quem vai dar e de quem vai receber. Essas informações sempre vazam no seio familiar. Sempre tem uma irmã que sabe de todos, ninguém sabe como. E você que torceu para não sair aquela prima fofoqueira, pois é justamente com ela que você vai se abraçar logo mais. E dizer todas aquelas frases. Todas, são insubstituíveis.

— E as propagandas de Natal? Existe coisa mais horrível que este bando de gordos com brancas barbas, puxados por veadinhos? A publicidade brasileira é uma das melhores do mundo, perdendo talvez apenas para a inglesa. Mas, chega o Natal, baixa o "espírito natalino" nos criadores das agências e dá no que dá. Eles não conseguem (há 1.994 anos) fazer um único anúncio sequer decente nessa época. São constrangedores, amadores, dignos de um Papai Noel de mentirinha. Tem uns, mais "criativos", que até neve têm, debaixo dos 40 graus de dezembro.

— E aqueles Papais Noéis que vão de casa em casa e os pais obrigam as criancinhas a dar beijo naquele sujeito imenso, barba descolada, sapatão de militar, já meio bêbado depois de passar em várias casas de amigos e parentes? As criancinhas esperneiam, não dormem semanas seguidas, sonhando com aquele monstro que o pai fez beijar. Meu Deus, é um outro pai que eu tenho?, devem pensar os pequenininhos da família. E o monstro ainda diz "coisas" para os indefesos, presos nos braços do pai ou da mãe, quiçá da avó: este ano, não vai fazer malcriação, vai comer toda a papinha, não vai mentir e nem fazer xixi na cama, viu, Rony? Coitados.

— Mas o pior mesmo é a ceia, propriamente dita. Com o passar dos anos, a família vai crescendo e de repente já são quatro gerações que estão ali, de olho no peru. Umas 50 pessoas. E ali dá de tudo. Cunhados que não se falam, a velhinha que não escuta os planos do asilo, o fulano que está falido, coitado, a prima que está dando para um sobrinho, aquele casal que está separado mas que, no Natal, baixa o "espírito" e eles comparecem juntos. Todo mundo sabe que se odeiam. Mas é Natal. Aquele tio que deve tanto para o seu irmão também está lá. Mas é Natal. E a irmã que não pagou a trombada que ela deu com o carro do tio-avô? Tudo é permitido. Afinal, é Natal. Nasceu quem mesmo? Jesus, não foi? E, por isso, à meia-noite, todos dão as mãos e rezam (des)unidos.

— E, para terminar: existe música mais chata que Jingle Bell?

Já o Reveillon, é o maior barato. É quando tomamos o porre para tirar e esquecer a ressaca do Natal. Mas não adianta. No ano que vem, tem outro Natal.


sexta-feira, novembro 17, 2006

Bye, esperança!!

Eu havia prometido nunca mais te dar uma noite, nem uma palavra, cá estou eu, te dedicando outra noite e outras tantas palavras – sem lágrimas dessa vez.
Não sei o que foi feito de sua vida, confesso que passei muito tempo sem pensar nisso, e mesmo hoje, não sei se gostaria de pensar nas infinitas possibilidades que te miravam de longe, enquanto você me dava as costas pela última vez, definitivamente.
Mas no que ficou pra trás, pensei, sim. Pensei muito. E fui, como é previsível, evoluindo daquela dor lancinante causada por memórias frescas à simples constatação de que foi uma página da minha história, com a qual aprendi, sorri, chorei, vibrei, tive medo, fui resoluta; e todos os capítulos são assim.
Hoje já não há culpa. Amargura nunca houve, isso eu não permito. Há só aquele valor e apego que a gente atribui a fotos antigas que não ocupam porta-retratos, a elas fica melhor o fundo da sua gaveta, ou o meio de um livro.
Não fazíamos planos, já certos de que eles nunca se realizariam – eu tinha bronca com sua recalcitrância em planejar - mas esse foi o lance da história, aí o nosso grande mérito: dançamos a valsa sem ouvir o som, e nossos passos foram firmes e graciosos.
À revelia de tudo, fizemos o que queríamos fazer. É a capacidade de provar da felicidade em estado bruto, aquela que prescinde de uma esperança no amanhã, e isso já é justificativa que chegue. É aquela falta de esperança que obriga com que os doentes terminais sejam felizes de qualquer jeito, com o tempo que lhes resta, com o vigor que lhes resta. No peito e na marra.
E, quem sabe, a esperança seja o melhor instrumento pra se adiar a nossa inarredável obrigação de ser feliz?
Já dizia o Barão de Itararé: “a esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados”. Tenho repetido essa frase com bastante freqüência ultimamente e acho que vou inscrevê-la nos umbrais do coração. Eu não quero esperança, quero ser feliz sem ela, como fui nos nossos dias, na nossa história que era uma “doença terminal do coração”, era o que você me dizia.
Nunca gostei de dizer, mas como não tenho mais 18 anos, admito sem muita contrariedade: Você tinha razão! E educada, agradeço: Obrigada pela lição.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Angústia


Era daquela angústia que te arranca da cama, que te invade o corpo, sem chance de que se defenda, e que aperta o peito, é como o assassino que perscruta os olhos da vítima, e vendo o sofrimento e o cansaço, espera excitado o derradeiro suspiro.
Quase involuntariamente me encolhi, como se quisesse caber em alguma mão, algum ninho que me pudesse acolher, que me pudesse proteger daquele monstro, que levantava contra mim seus cutelos e ameaçava-me rasgar o ventre.
Os lábios cerrados, todas as palavras – que não costumam me faltar – me abandonaram, nem aquele grito gutural, última esperança dos aflitos, e junto com eles me escapava também o ar.
Voltei para a cama, e deitada de frente para a janela, com as cortinas abertas, olhava as varias janelinhas que podia ver dali, e me perguntava quantos outros, naquele mesmo momento, se faziam acompanhar por aquela dor excruciante, que dói muda, dói na alma.
Uma dor pela ida de qualquer coisa, uma dor pela não chegada.
Ou da dor inadvertida, inominada, do pânico, que vive sob tão grandes profundezas infernais que sobe, sem se dar conta de que não aconteceu nenhum evento que o pudesse invocar.
Depois de algo que pareceu um milênio, foi o primeiro instante em que senti minha respiração voltando ao normal, e percebi meus membros se soltando, reencontrando seus lugares e repousando por ali.
Fui à varanda e me sentei...Queria que qualquer olho, eventualmente perdido em uma daquelas janelinhas, soubesse que não estava sozinho.
Dei peleja ao dragão.
Venci.
Veio o dia claro.
Veio o sono.
E, outra vez, me convenci de que mereço ser feliz.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Nome Solidão


Desde que a angústia tem teu gosto
Desde que a espera tem teu cheiro
E a poeira dos caminhos de distantes horizontes
Tem a cor do teu cabelo.

E, à beira, os álveos, ressequidos como os seus lábios, dizem:
Fui! E já não sou mais!
Desde então, digo solidão com as sílabas do meu próprio nome.

(03-V-06)

quinta-feira, outubro 26, 2006

Sorriso de Canto

Todas as quartas-feiras ele estava lá e eu adorava reparar no jeitinho recatado dele.
Que era tímido, eu sabia com certeza. Sentava-se sempre na mesa do cantinho, procurando impor alguma dificuldade aos olhares que quisessem alcança-lo.
Era clássico, sóbrio. Os ternos escuros, bem cortados, a gravata sempre lisa. A cor dos olhos eu ainda não havia descoberto, mas eram miúdos, avessos a passeios, concentradíssimos, por trás dos discretos óculos sem armação.
Os cabelos grisalhos, ondulados, curtos, brilhantes, pareciam sedosos: coisa de homem que não usa “Elsève 2 em 1” só porque, afinal, os cabelos precisam ser lavados.
Ele tomava café expresso, fumava cigarrilha: Adoro!
Mas tinha uma postura quase estática, era ereto, imponente. Pouco gesticulava nas vezes em que se fazia acompanhado e conversava, as pernas, sempre paralelas uma à outra; os pés, elegantemente calçados, firmemente plantados no chão.
Voar é coisa de borboleta, de passarinho.
Era austero, não deixava nenhuma dúvida.
Mas tinha um sorriso de canto de boca. Um sorriso de canto, que era um encanto!
Todas as vezes que eu via aquele sorriso, jurava que aquela austeridade-quase-ausência seria mandada às favas qualquer dia desses.
Hoje, estava sentada à mesa e, depois de me lembrar dessa impressão, fui eu quem dei um sorriso de canto depois de pensar: Eu sabia, eu sabia!

Dama Branca


A dama branca assiste a tudo de maneira indiferente.
Do alto de sua morada, ela já conhece esse pranto.
E o último passo do destino, como aquela que foi a primeira
a sorver o amargor.

Ela se move arrastando a orla de seu vestido de seda pelo firmamento.
Por entre luminares que perecem, arrefecidos com sua presença.
O tempo não tocou seu rosto.
Não há vincos, porque ela não quis chorar.

Mas sempre há a dor dos que não sofrem.
Que a tudo esvazia e a tudo torna branco.
Branco e luminoso como a face dela.
A face que enfeita tudo que ela não quis.


(26-IV-2006)

O Ressentido de si mesmo

Como são infelizes essas pessoas ressentidas de si mesmas. Mas eu nem ligaria se elas percebessem que sua infelicidade, como uma opção pessoal, não deve ultrapassar os limites de sua própria vida.
O problema é que eles se recusam a perceber que são seus maiores – e muitas vezes únicos - algozes, e numa atitude de auto-comiseração, acham injusto descer ao fundo do poço sozinhos, querem levar consigo o resto da humanidade.
São vampiros, cruéis, saqueadores de energia, não suportam a felicidade e a liberdade alheia.
São covardes também. Falta-lhes coragem de dizer a verdade. Eles não têm integridade, fazem-se doutrinadores, tentam disfarçar o cheiro pútrido do seu ódio; invocam leis divinas, invocam leis morais, invocam o diabo e assim vão o disseminando, e lançam ao coração dos outros a culpa. Lançam sobre os ombros alheios um fardo pelo qual não movem um dedo, sequer, para carregar.
Tudo isso porque não assumem o ódio que sentem por si mesmas, porque não querem se convencer de que não são inferiores a ninguém, antes, querem fazer com que os outros sejam ainda mais desgraçados, inventam leprosos para sentirem-se um pouco melhor.
Canalhas!