sábado, agosto 11, 2007

A minha dor é maior porque é [minha].

Há poucas coisas no mundo que me irritam mais do que a - admito, bem intencionada - tentativa de consolar-me de meus pequenos (ou não)
problemas com os outros grandes problemas que assolam seres mais desgraçados do que eu naquele momento.
Seu namorado te deixou: Tem gente agora no cemitério chorando a morte da mãe;
Sua mãe morreu: Tem gente no hospital inconsciente sem poder acompanhar o funeral da mãe que morreu;
Você está no hospital: Tem gente que morreu!
Aí, você morre: vai alguém ao seu funeral contar pra sua mãe sobre a história da mulher que perdeu os três filhos em um deslizamento de terra.

Eu sei que perder a mãe, certamente, implica uma dor muito maior do que a dor de perder um namorado; e perder um namorado é uma dor muito maior do que a dor de derramar acetona naquele vestido que você iria usar pela primeira vez (dependendo do namorado, né?)...é claro, isso aí todo mundo sabe. Existem dores e dores.
Entretanto, por mais que se tenha solidariedade, empatia, para com os problemas alheios, a dor só doi em quem experimenta, quem calça o sapato...não existe isso de mitigar a tua dor com a dor do outro. Isso me parece tão óbvio que nem consigo falar mais do que isso sobre a questão.
E, cá entre nós, não é meio bizarro isso?

Agora é a hora de vocês me chamarem de egoísta. :p

quinta-feira, agosto 02, 2007

A Lista

Primeiro, foram as cores de Sylvia Plath. Eram todas muito vivas, fortes, e não eram as cores que coloriam os bancos das praças, os brinquedos e o céu da minha infância belo horizontina.
Era, na adolescência, minha introdução ao desespero de libertação daquilo que luta pra ser indizível...Uma luta sangrenta mas linda, cheia de cores, astros, frutos, flores, metais e terra.
Via cair morto o mundo inteiro até o pavor da cegueira de Saramago, e agora a dúvida sobre o que se impõe ao homem com mais fúria, o inexprimível ou o invisível, que nos faz andar tateando como crianças desoladas pelas escuras e tortuosas avenidas engenhadas pela própria mente...sem a ajuda de ninguém!
Do lado de fora, sentia queimar a pele o sol de Rachel de Queiroz, pai austero que dá a vida, o pão e o castigo...o castigo de lágrimas e sentimentos ressequidos pela sanha da sobrevivência, no meio da pobreza que brutaliza e do cheiro de morte entranhado de poeira.
Mas a morte não deveria, afinal, ser grande coisa pra todos nós que já fomos cadáveres antes de nascer. Com Augusto dos Anjos aprendi a sorrir para o dragão, talvez tentando distraí-lo, talvez tentando convencer a mim mesma de que não terei medo do dia em que chegar a minha vez de enfrentar seus dentes dourados.
E, finalmente, com Goethe soube do pequeno atalho, que só mostra com propriedade sobre como não sabemos absolutamente nada das coisas sobre as quais discorremos com uma pretensa sabedoria todos os dias. Não há nada sobre o que se saiba e o único ato de controle possível nesse curioso episódio que é a vida, é a libertação total e final do próprio espírito.