segunda-feira, outubro 30, 2006

Angústia


Era daquela angústia que te arranca da cama, que te invade o corpo, sem chance de que se defenda, e que aperta o peito, é como o assassino que perscruta os olhos da vítima, e vendo o sofrimento e o cansaço, espera excitado o derradeiro suspiro.
Quase involuntariamente me encolhi, como se quisesse caber em alguma mão, algum ninho que me pudesse acolher, que me pudesse proteger daquele monstro, que levantava contra mim seus cutelos e ameaçava-me rasgar o ventre.
Os lábios cerrados, todas as palavras – que não costumam me faltar – me abandonaram, nem aquele grito gutural, última esperança dos aflitos, e junto com eles me escapava também o ar.
Voltei para a cama, e deitada de frente para a janela, com as cortinas abertas, olhava as varias janelinhas que podia ver dali, e me perguntava quantos outros, naquele mesmo momento, se faziam acompanhar por aquela dor excruciante, que dói muda, dói na alma.
Uma dor pela ida de qualquer coisa, uma dor pela não chegada.
Ou da dor inadvertida, inominada, do pânico, que vive sob tão grandes profundezas infernais que sobe, sem se dar conta de que não aconteceu nenhum evento que o pudesse invocar.
Depois de algo que pareceu um milênio, foi o primeiro instante em que senti minha respiração voltando ao normal, e percebi meus membros se soltando, reencontrando seus lugares e repousando por ali.
Fui à varanda e me sentei...Queria que qualquer olho, eventualmente perdido em uma daquelas janelinhas, soubesse que não estava sozinho.
Dei peleja ao dragão.
Venci.
Veio o dia claro.
Veio o sono.
E, outra vez, me convenci de que mereço ser feliz.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Nome Solidão


Desde que a angústia tem teu gosto
Desde que a espera tem teu cheiro
E a poeira dos caminhos de distantes horizontes
Tem a cor do teu cabelo.

E, à beira, os álveos, ressequidos como os seus lábios, dizem:
Fui! E já não sou mais!
Desde então, digo solidão com as sílabas do meu próprio nome.

(03-V-06)

quinta-feira, outubro 26, 2006

Sorriso de Canto

Todas as quartas-feiras ele estava lá e eu adorava reparar no jeitinho recatado dele.
Que era tímido, eu sabia com certeza. Sentava-se sempre na mesa do cantinho, procurando impor alguma dificuldade aos olhares que quisessem alcança-lo.
Era clássico, sóbrio. Os ternos escuros, bem cortados, a gravata sempre lisa. A cor dos olhos eu ainda não havia descoberto, mas eram miúdos, avessos a passeios, concentradíssimos, por trás dos discretos óculos sem armação.
Os cabelos grisalhos, ondulados, curtos, brilhantes, pareciam sedosos: coisa de homem que não usa “Elsève 2 em 1” só porque, afinal, os cabelos precisam ser lavados.
Ele tomava café expresso, fumava cigarrilha: Adoro!
Mas tinha uma postura quase estática, era ereto, imponente. Pouco gesticulava nas vezes em que se fazia acompanhado e conversava, as pernas, sempre paralelas uma à outra; os pés, elegantemente calçados, firmemente plantados no chão.
Voar é coisa de borboleta, de passarinho.
Era austero, não deixava nenhuma dúvida.
Mas tinha um sorriso de canto de boca. Um sorriso de canto, que era um encanto!
Todas as vezes que eu via aquele sorriso, jurava que aquela austeridade-quase-ausência seria mandada às favas qualquer dia desses.
Hoje, estava sentada à mesa e, depois de me lembrar dessa impressão, fui eu quem dei um sorriso de canto depois de pensar: Eu sabia, eu sabia!

Dama Branca


A dama branca assiste a tudo de maneira indiferente.
Do alto de sua morada, ela já conhece esse pranto.
E o último passo do destino, como aquela que foi a primeira
a sorver o amargor.

Ela se move arrastando a orla de seu vestido de seda pelo firmamento.
Por entre luminares que perecem, arrefecidos com sua presença.
O tempo não tocou seu rosto.
Não há vincos, porque ela não quis chorar.

Mas sempre há a dor dos que não sofrem.
Que a tudo esvazia e a tudo torna branco.
Branco e luminoso como a face dela.
A face que enfeita tudo que ela não quis.


(26-IV-2006)

O Ressentido de si mesmo

Como são infelizes essas pessoas ressentidas de si mesmas. Mas eu nem ligaria se elas percebessem que sua infelicidade, como uma opção pessoal, não deve ultrapassar os limites de sua própria vida.
O problema é que eles se recusam a perceber que são seus maiores – e muitas vezes únicos - algozes, e numa atitude de auto-comiseração, acham injusto descer ao fundo do poço sozinhos, querem levar consigo o resto da humanidade.
São vampiros, cruéis, saqueadores de energia, não suportam a felicidade e a liberdade alheia.
São covardes também. Falta-lhes coragem de dizer a verdade. Eles não têm integridade, fazem-se doutrinadores, tentam disfarçar o cheiro pútrido do seu ódio; invocam leis divinas, invocam leis morais, invocam o diabo e assim vão o disseminando, e lançam ao coração dos outros a culpa. Lançam sobre os ombros alheios um fardo pelo qual não movem um dedo, sequer, para carregar.
Tudo isso porque não assumem o ódio que sentem por si mesmas, porque não querem se convencer de que não são inferiores a ninguém, antes, querem fazer com que os outros sejam ainda mais desgraçados, inventam leprosos para sentirem-se um pouco melhor.
Canalhas!