
Era daquela angústia que te arranca da cama, que te invade o corpo, sem chance de que se defenda, e que aperta o peito, é como o assassino que perscruta os olhos da vítima, e vendo o sofrimento e o cansaço, espera excitado o derradeiro suspiro.
Quase involuntariamente me encolhi, como se quisesse caber em alguma mão, algum ninho que me pudesse acolher, que me pudesse proteger daquele monstro, que levantava contra mim seus cutelos e ameaçava-me rasgar o ventre.
Os lábios cerrados, todas as palavras – que não costumam me faltar – me abandonaram, nem aquele grito gutural, última esperança dos aflitos, e junto com eles me escapava também o ar.
Voltei para a cama, e deitada de frente para a janela, com as cortinas abertas, olhava as varias janelinhas que podia ver dali, e me perguntava quantos outros, naquele mesmo momento, se faziam acompanhar por aquela dor excruciante, que dói muda, dói na alma.
Uma dor pela ida de qualquer coisa, uma dor pela não chegada.
Ou da dor inadvertida, inominada, do pânico, que vive sob tão grandes profundezas infernais que sobe, sem se dar conta de que não aconteceu nenhum evento que o pudesse invocar.
Depois de algo que pareceu um milênio, foi o primeiro instante em que senti minha respiração voltando ao normal, e percebi meus membros se soltando, reencontrando seus lugares e repousando por ali.
Fui à varanda e me sentei...Queria que qualquer olho, eventualmente perdido em uma daquelas janelinhas, soubesse que não estava sozinho.
Dei peleja ao dragão.
Venci.
Veio o dia claro.
Veio o sono.
E, outra vez, me convenci de que mereço ser feliz.

