quinta-feira, outubro 26, 2006

Sorriso de Canto

Todas as quartas-feiras ele estava lá e eu adorava reparar no jeitinho recatado dele.
Que era tímido, eu sabia com certeza. Sentava-se sempre na mesa do cantinho, procurando impor alguma dificuldade aos olhares que quisessem alcança-lo.
Era clássico, sóbrio. Os ternos escuros, bem cortados, a gravata sempre lisa. A cor dos olhos eu ainda não havia descoberto, mas eram miúdos, avessos a passeios, concentradíssimos, por trás dos discretos óculos sem armação.
Os cabelos grisalhos, ondulados, curtos, brilhantes, pareciam sedosos: coisa de homem que não usa “Elsève 2 em 1” só porque, afinal, os cabelos precisam ser lavados.
Ele tomava café expresso, fumava cigarrilha: Adoro!
Mas tinha uma postura quase estática, era ereto, imponente. Pouco gesticulava nas vezes em que se fazia acompanhado e conversava, as pernas, sempre paralelas uma à outra; os pés, elegantemente calçados, firmemente plantados no chão.
Voar é coisa de borboleta, de passarinho.
Era austero, não deixava nenhuma dúvida.
Mas tinha um sorriso de canto de boca. Um sorriso de canto, que era um encanto!
Todas as vezes que eu via aquele sorriso, jurava que aquela austeridade-quase-ausência seria mandada às favas qualquer dia desses.
Hoje, estava sentada à mesa e, depois de me lembrar dessa impressão, fui eu quem dei um sorriso de canto depois de pensar: Eu sabia, eu sabia!

Um comentário:

  1. Anônimo4:26 PM

    Gosto de pensar que foi pra mim. Beijos muitos.

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